Futebol Brasileiro

ESPECIAL: Hoje treinador, Alex fala sobre formação de jogadores e mercado de técnicos no Brasil

Técnico do sub-20 do São Paulo atendeu a reportagem da TNT Sports com exclusividade na última quarta-feira (18)

Por Priscila Senhorães

Alex explica seu método de trabalho e relação com garotos do São Paulo(Rubens Chiri/saopaulofc.net)

Alex explica seu método de trabalho e relação com garotos do São Paulo | Rubens Chiri/saopaulofc.net

Coritiba. Palmeiras. Fenerbahçe. Seleção Brasileira. Inúmeros títulos como jogador. Essa é só uma pequena parte da longa experiência de Alex antes da aposentadoria dos gramados. O ex-jogador, no entanto, quer ser lembrado por muito mais do que isso. Hoje ele aprimora e bota em prática, no sub-20 do São Paulo, a função técnica do futebol. 

“Em abril fechei um ano como treinador do São Paulo. Eu acredito na escola do futebol brasileiro, no futebol sempre em busca do gol, onde os jogadores têm as suas responsabilidades e dentro delas eles têm liberdade de fazer o que eles sabem e aprenderam ao longo das suas vidas. Gosto de ter uma equipe o mais organizada possível, porque quanto mais organizado você for, menos condições você oferece ao adversário. E quando o adversário te coloca em dificuldades, estando organizado você consegue sair delas. O principal para mim é a simplicidade, quanto mais simples for a forma de se comunicar, a absorção é mais fácil para que os jogadores se desenvolvam e a gente possa ter um bom time”, disse o técnico dos jovens jogadores do São Paulo.

Em um papo sincero e exclusivo de mais de 30 minutos nesta quarta-feira (18) com a reportagem da TNT Sports, no CFA Laudo Natel, Alex revelou como realiza a sua parte do trabalho de formação de jogadores, principalmente envolvendo a função de cada um dentro de campo.

“Eu vejo futebol pela qualidade do atleta, o que ele tem de relação com a bola. E aí vamos encontrar jogadores que têm uma qualidade espetacular, outros que jogam de maneira mais simples, e outros que de repente têm alguma dificuldade técnica, o que é natural. Eu vejo como a qualidade e a característica pode fazer diferença dentro de campo e aí como pode se utilizar disso em algumas posições e, dentro disso, a função que ele consegue exercer. A gente tenta passar isso para os atletas".

A cada temporada que se passa, entender o futebol brasileiro é um desafio e tanto. O imediatismo influencia carreiras de uma maneira que beira o amadorismo. Pouco se analisa os trabalhos desenvolvidos dentro de um clube, o resultado virou uma das poucas coisas que importa. Mas a complexidade de se alcançar o resultado num jogo de futebol vai muito além do que o número do placar.

“O treinador tem a responsabilidade de dar o treino e deixar o time organizado. Se chega no jogo e não funciona, ele (gestor) tem que saber o porquê de não funcionar e buscar responsabilizar. Não é culpa, é responsabilidade dividida de muita gente dentro do futebol. Eu sempre brinco que você vai no jogo domingo e o camisa 10 vai bater o escanteio. Aí ele bate a bola no primeiro pau e o time foi todo foi para o segundo pau. Quem errou? Só sabe quem errou quem acompanhou o treino da semana. Os gestores, os executivos e os diretores precisam acompanhar o dia a dia para saber o que foi treinado. O torcedor quer que ganhe, e ele está na dele, porque o torcedor se o time dele recuar, tomar sufoco e ganhar, está ok. Vão falar: 'Pô, recuamos, mas ganhamos'. Esse é o sentimento do torcedor, porque ele não contrata, não manda embora, ele só torce, só quer que o time dele ganhe. Agora, quem está no meio, tem que acompanhar”, desabafou Alex.

Confira, em vídeo, a resposta acima completa:

 

Os desafios para Alex seguem tão intensos quanto os de um atleta que veste a chuteira e vai para o campo buscando a vitória para o escudo que carrega no peito. Os técnicos sempre carregam a sua responsabilidade, é claro, mas o ex-atleta acredita em uma divisão de incumbências, o que colabora para não o desmotivar a seguir na profissão.

“Eu me preocupo com o que posso dominar, o que eu posso dominar na situação? Eu controlo o treino, a carga de treino, o que vamos treinar e como vamos entrar em campo. O jogo é incontrolável. Eu não controlo se meu goleiro vai tomar um frango, se meu zagueiro vai tocar para a direita ou para a esquerda. Eu treino para a minha linha sair marcando, mas se no jogo ele ficar lá atrás é uma decisão do jogador, o jogo é do jogador. Qualquer treinador do mundo que se senta com outro treinador numa mesa tática ele vai empatar o jogo. Mas na hora que começa o jogo vão acontecer algumas coisas que escapam da mão do treinador. Ela pertence aos jogadores. E em cima disso tem o ser humano: Um mais corajoso que outro, um que vai tentar mais que outro, um que vai recuar mais que outro, um que no estádio vazio vai se dar bem, mas em um jogo com estádio cheio vai jogar de outro jeito. São seres humanos”, disse Alex, que finalizou:

“O jogo realmente é algo incontrolável. O imponderável acontece a todo momento. Temos que treinar, enfatizar e repetir para que o jogador acredite naquilo que estamos passando e tenha coragem para fazer o que é treinado, que talvez seja o papel mais difícil do treinador”.

Foto: saopaulofc.net/estrutura/cfa-cotia

Para dar o “start” na sua carreira como treinador, Alex não começou nada mal. Hoje ele treina o time pioneiro em categorias de base no Brasil e reconhecido no mundo pelo seu desempenho em revelar grandes atletas de futebol.

“O que o São Paulo oferece aos seus atletas e para nós, profissionais que trabalhamos aqui, é de primeira grandeza. Tem uma estrutura física maravilhosa e a maneira que eles pensam nos dá condições. O São Paulo não deixa nada a desejar.

No dia 16 de julho, serão completados 17 anos desde a inauguração do Centro de Formação de Atletas Presidente Laudo Natel. O espaço é motivo de orgulho para todo são-paulino. São 230 mil metros quadrados e uma coleção de instalações. Para Alex, no entanto, ainda há espaço para melhoras na utilização do enorme espaço que pertence ao Tricolor.

“Todos temos liberdade de citarmos algumas coisas, não só eu. Isso é um clube de futebol e em cima disso sempre surge alguma ideia. Uma das coisas que disse para o São Paulo é que Cotia é lindo, o centro de treinamento é espetacular, mas ele pode ser melhor funcional para criar proximidade de relação das comissões técnicas e criar uma facilidade maior entre departamento médico e fisiologia. Como o terreno é muito amplo e grande, muitas vezes para fazer algumas coisas precisa desse dinamismo, e pela distância isso acaba se perdendo. Em dado momento, com estudos, eles podem fazer modificações, e tudo que é para melhorar, qualquer empresa vai buscar fazer”, revelou.

Ainda assim, Alex reconhece e agradece toda a estrutura que o São Paulo o oferece para ser importante e fundamental na transição dos garotos. Já as grandes entidades do futebol brasileiro deixam a desejar no quesito organização do calendário das categorias.

“Está longe do ideal, longe do que poderia ser feito. A primeira situação que tem que ter um cuidado tremendo é que os clubes gastam com seus meninos e seus profissionais, e de repente você vai para um campo sem condição nenhuma de jogar futebol, é o primeiro detalhe. O outro é que paramos de jogar. Último jogo oficial foi a Taça São Paulo, era 22 de janeiro aqui. Todos sabemos que é uma competição importante do sub-20, talvez a mais badalada, e ela acaba em 25 de janeiro. Hoje estamos em maio e ainda não começou a competição nacional e quando começar vão começar a jogar datas em cima de datas e uma das coisas que melhora jogador de futebol é treinar, tem que ter tempo para treinar, recuperar e jogar. Quando falamos de calendário no Brasil é nesse sentido, não é de se jogar mais ou menos, e sim de entender as etapas que precisam ser respeitadas, e a de treinamento é uma que precisa ser respeitada”, desabafou o técnico.

Questionado sobre se o calendário das categorias de base acaba prejudicando a transição física dos atletas ao serem efetivados ao time profissional, Alex foi além na análise do motivo de alguns jogadores sofrerem com a mudança brusca de ambiente.

“São coisas diferentes. A fase de treinamento é importante desde que a criança começa a jogar bola com seus 10 anos, todos os clubes precisam cuidar disso, mas uma coisa que é diferente de futebol de base para o futebol principal é que tem muita ação externa, o torcedor tem um peso muito grande, a rede social tem um peso grande e a imprensa tem um peso grande. Então muitas vezes a gente vê um menino que é considerado craque nas categorias de base, mas quando chega no profissional não joga porque está num período de adaptação de tudo aquilo que o futebol das equipes principais te condiciona, é muito diferente”, disse Alex, que continuou:

“O futebol de base não serve para o time de cima, o de cima tem uma relação externa forte e pesada. Isso é do clube, dos treinadores, dos jogadores, de ter esse entendimento. Agora, treinar é muito importante, seja com 10 anos ou na equipe principal, porque é o que melhora jogador e melhora o rendimento. Tem que ter isso bem definido: Jogamos em tal data, treinamos em tal data e descansamos em tal data. Parece simples, mas no Brasil a coisa não funciona assim, existem várias discussões para que isso seja respeitado e aí sim se faça cobrança da transição dos meninos quando sobem e da meninada que está jogando na equipe principal”, finalizou.

Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net

“A minha relação com Rogério é igual era com o Crespo. ‘Alex, como é o fulano?’ ‘Ele é bom jogador, tem tal jogador, pessoalmente ele é assim’: Essa é minha relação com o Rogério. Eu não aponto ‘esse aqui podia subir’, isso eu não faço (...) O que me foi pedido foi que eu cuidasse da parte técnica dos jogadores para eles não terem erros grotescos como a gente acaba vendo em equipes principais, meu trabalho é voltado para explicar para os meninos que tecnicamente temos que estar bem, porque, para jogar no Morumbi com a camisa do São Paulo, o nível de exigência é muito alto. Os caras estão acostumados com times enormes, jogadores enormes, é importante que o jogador tecnicamente resolva isso, além do comportamento pra jogar no São Paulo”, revelou Alex, que continuou.

“O que eu fiz a mais é explicar para os jogadores que nem todos vão jogar no São Paulo. Eles vão entrar no mercado, o mercado pode ser o São Paulo, pode ser um time no nível do São Paulo, um time num nível mais baixo ou um time no nível europeu”, finalizou Alex.

A reação que um jogador tem ao escutar que, apesar de estar na base do São Paulo, pode não vestir a camisa do time principal, varia. O fato é que muitas das expectativas que esses meninos criam é também responsabilidade externa, uma vez que se bota um peso nas costas com comparações e obrigações.

“Isso é muito pessoal, podemos pegar meninos aqui que ouviram desde os 11 anos que seriam o novo Kaká, que parecem com o Raí. Tem uma coisa que é perigosa em qualquer local, que é olhar para um menino de 12 anos e falar que joga muita bola, que vai ser o novo camisa 8 do São Paulo, e de repente não oferecer para ele situações de testá-lo desde pequeno para, quando chegar a hora, ele realmente ter vivenciado muitas coisas. Têm meninos que chegam aqui com 18 anos e acreditam que estão prontos, como eu lido com esses? Diferente de lidar com outro menino que só ouviu coisa negativa”

“Um exemplo é o Pablo (Maia), que hoje é titular do São Paulo. Desde os 15 anos ouviu poucas coisas positivas sobre ele, só que ele usou isso a favor dele. Talvez seja a primeira vez que o Pablo escuta tanta coisa positiva a respeito dele. Como eles escutam isso depende da escola que tiveram, do que ouviram ao longo da vida. Eu utilizo muito de conversa individual, procuro conhecer a história dos meninos porque eu tenho tempo, talvez o treinador de cima não tenha tempo”.

 

Alex está em sua segunda temporada como treinador das categorias de base do São Paulo. A primeira, com bom desempenho, foi a de estreia do - ainda novato - técnico de futebol. Ele faz parte de um projeto do presidente Julio Casares de formar bons profissionais dentro de casa visando o futuro. 

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